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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Pulsando

(Texto escrito em 13.01.2014)

Querida Luna,

Você ainda não sabe, mas quando sua mãe nasceu, eu vim com “defeito de fábrica”; mas durante alguns anos, nada seria percebido. Quando adolescente, ela descobriu que tinha arritmia – um distúrbio no ritmo em que eu batia. Nada grave, sem causas aparentes: ela não fumava, não ingeria álcool, cafeína, muito menos cocaína, e não tinha o menor sinal de estresse. Descobriu, porque comecei a bater acelerado e com tal intensidade que, quando um copo com água era colocado sobre seu peito, a água balançava e espirrava pra fora do copo. Passou alguns anos controlando com medicamento, até que resolveu parar por conta própria, pois os sintomas haviam desaparecido.

O que ela não sabia, era que, anos depois, me faria trabalhar e bater descompensado e fora do ritmo para o resto da vida. As alterações começaram na gravidez, quando ela passou a prestar mais atenção em mim, e percebeu que eu bombeava com mais intensidade, pra te atender. Só ficou mais tranquila quando fez os exames e concluiu que, além da maior necessidade de circulação sanguínea, estar tão perto de você me deixava extremamente animado! Se sua mãe soubesse que ter você faria com que eu batesse tão apertado, acelerado, preocupado, histérico, emocionado, orgulhoso, entristecido, divertido, e transbordante de amor até meu último pulsar, ela acharia aquela arritmia da adolescência coisa de amador.

Os olhos de sua mãe são os meus olhos; seus ouvidos, os meus. E, há exatos três anos, cada vez que você aparece no campo de visão, ou que o timbre de sua voz chega até mim, aquela constância rítmica muda, desequilibra e perde o foco da contagem. A cada ano que passa eu encontro novas formas de bater, tudo é sempre novo pra nós. Sou um órgão muscular oco, envolto por um saco cheio de líquido chamado pericárdio, localizado no interior da cavidade torácica; e você vai continuar sendo o motivo pelo qual pulso, todos os dias. Obrigada por cada pulsar.

Assinado: Coração de mãe
 
 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

29 (re)nascimentos



(Post escrito em 05.08.2013)

Há exatos dez anos, no dia 05 de agosto, ajudei minha avó a fazer a mudança: do enorme sobrado de esquina, onde morou durante décadas (até meu avô falecer), para um apartamento de 50m2, na mesma rua. Depois de tudo organizado, Dona Marlene me levou pra almoçar num restaurante self-service ali no bairro, tudo bem simples. Hoje, ao me abraçar e me desejar felicidades, a matriarca do lado materno da família lembrou aquele dia dizendo: “Que ‘belo’ dia de aniversário foi aquele: fazendo mudança para a avó”.

Foi essa declaração que me fez refletir um pouco sobre como o tempo passou. Os anos em que meu maior presente era ficar em casa assistindo televisão e devorando a cesta de café da manhã que ganhava dos meus pais. Os anos em que passava meses com a ansiedade no nível 100, organizando uma festa em casa ou em outro lugar. Expectativa em receber ligações, em ganhar presentes e me sentir amada “pelo maior número de pessoas possível”. Bobagens que faziam sentido, cada uma na sua época!

Sinceramente, acho que a gente vai ficando seletiva, as expectativas vão sendo direcionadas para o que e quem realmente importa. Voltando no tempo os tais dez anos, hoje percebo que “festejei aquele dia do recomeço” com alguém que sente por mim um amor que eu nunca soube dar o devido valor, até “saber” o que é o amor de avó, quando vejo minha mãe com minha filha.

E me dei conta que, nestes últimos três anos, o tão dia especial perdeu aquela magia, ou parte dela.. Acho que o nascimento (e renascimentos) da Luna me são mais caros que os meus próprios. Desta vez, lembrei somente três dias antes que eu precisaria combinar pelo menos um jantar com meus pais.  Tem tanta coisa acontecendo nestes últimos meses que o inferno astral não teve vez, mas a importância do aniversário acabou ficando em segundo plano. Segundo?! Quinto plano. Sei que tem muita gente que consegue emocionalmente conciliar tudo, mas pra mim ficou difícil gerenciar a ansiedade pela pós-graduação que começaria naquela semana, a chegada de um membro canino na família em poucos dias, reflexões e indefinições sobre o futuro profissional, questões familiares de saúde, crise de identidade, entre outras cositas más.

Em cima do bolo havia uma vela com o número cinco, a única que tinha na casa dos meus pais, mas assoprei com vontade – junto com a Luna, claro! – desejando que, assim como acreditavam na antiguidade, os desejos e as preces chegassem até o céu junto com a fumaça. Terminei este dia agradecendo por toda a caminhada que percorri, percebi que a gente aprende errando e mesmo alguns erros podem ter sido bem acertados. Pedi força para continuar a caminhada – tomando cada decisão com mais sabedoria - e a capacidade para sempre tentar de novo. Agradeci pelo dia e por todo amor que recebi (presencialmente ou não) e que eu continue conectada às pessoas pra quem eu possa mostrar o que sou e me doar sem ter medo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A ausência de um sopro... E o exercício do vazio


Desde que Luna nasceu, dedico algum tempo do meu dia pra navegar na blogosfera materna. E esse é um mundo que eu nunca imaginei que existisse até então. O que descobri foi que muitos desses blogs não são apenas diários virtuais de mães babando em seus filhos; eles possuem uma variedade de tons, jeitos, formas e interesses que dariam uma colcha de retalhos.

E o que a grande maioria permite, principalmente pra mães de primeira viagem, não é apenas saber o que se passa na vida dessas famílias, mas conhecer todo um universo que gira em torno dos bebês e das crianças; tanto pro bem, como pro mal.

Mas falando da parte boa, foi num hiperlink de algum dos blogs que acompanho que conheci os textos da Eliane Brum. Há quem pense: “Nooooooooooooooooooossa! Ela não conhecia a Eliane Brum antes?! Tá por fora, hein colega?!” Pois bem, não conhecia. E ela veio até mim através do texto - já lido por muitos – “A dor dos filhos”. Na época que ele foi publicado (começo de novembro do ano passado) eu li, achei incrível, refleti sobre a minha relação com Luna, concordei com cada palavra que disse, salvei na minha pasta de favoritos e fui fazer outra coisa na Internet.

Mas o aniversário de dois anos da pequena, no começo deste ano, fez com que as palavras daquele texto me encontrassem no meio da multidão, caíssem todas na minha cabeça e ficassem penduradas na barra do meu vestido.

Primeiramente, duas informações importantes: na escola da Luna, os aniversários são comemorados semanalmente, caso alguma criança naquela respectiva semana tenha completado mais uma primavera e a mãe tenha interesse em compartilhar a felicidade da família com os amigos da escola; outra coisa, as festinhas são coletivas, ou seja, acontecem na hora do lanche da manhã ou do lanche da tarde, no refeitório, para toda a escola, aproximadamente 60 crianças.

Com isso conclui-se que Luna passou um ano cantando parabéns para os amigos “semanalmente”, ouvindo seus nomes sendo gritados pelos outros alunos e consequentemente os vendo assoprar suas respectivas velas e ganhando abraços das ‘tias’. E na segunda quinzena de janeiro deste ano, seria sua vez. Seria?!

Bem, pra contextualizar, eu não estava presente na festa, mas a escola permite que os pais enviem uma máquina fotográfica Canon 7D simples para que as professoras registrem o momento. E bem sabendo da minha eterna preferência por vídeos (ao invés de fotos), minha mãe, consultora pedagógica da escola, que estava presente no dia, gravou na íntegra o momento mais esperado da festinha.

Como a ideia é justamente compartilhar a felicidade, assim como aconteceu no aniversário das outras crianças, no momento do parabéns, Luna ficou atrás da mesa do bolo e junto com ela as outras três  crianças da sua sala – duas delas (um menino e uma menina) amigos dos quais ela sempre fala e gosta muito - que estavam na escola no dia. Até aí tudo lindo, felicidade estampada no rosto.

E a música tema de todo aniversário começou a ser cantada. Luna não sabia se ria, se olhava para o bolo, pra vela, pras pessoas; ficou com aquela expressão de feliz-encabulada por ser o centro das atenções. E a cada palavra cantada, a expectativa ia aumentando, pois logo menos seu nome seria dito em voz alta por todos. A cada frase Luna preparava o biquinho pra assoprar sua vela branca com o número dois.

“Luna! Luna! Lu...” A terceira palavra ficou incompleta na boca de seu amiguinho de sala, pois muito rapidamente ele parou de cantar, passou na frente da minha pequena e assoprou sua vela, antes que ela pudesse chegar próximo ao bolo. A surpresa foi geral e a reação que todos tiveram ao mesmo tempo foi... Rir. Todos menos Luna. Sua primeira expressão foi de espanto, supostamente sem entender o que havia acontecido. E segundos depois, fez o biquinho mais doce e triste do mundo, levou as duas mãozinhas fechadas ao rosto e começou a chorar. (pausa para enxugar minhas lágrimas, que estão molhando o teclado). Claro que não foi por maldade, o menino tinha um pouco – bem pouco – mais de dois anos; foi espontâneo e sem pretensões de magoar ninguém.

Conversando com minha mãe, ela disse que a choradeira durou um tempinho, mas que em seguida a vela foi acesa de novo e aí sim Luna conseguiu assoprá-la. Mas aí, a magia já tinha sido quebrada, né não?! Pelo menos pra mim... Que criança sonha, durante um ano, em assoprar a vela de seu próprio bolo em “segundo lugar”?! Assisti ao vídeo repetidas vezes e em todas senti meu coração apertado. A vontade que eu tinha era de colocar o moleque pendurado numa árvore de cabeça pra baixo pular na tela e abraçar minha filha, sem dizer nada. “Não foi nada! Foi uma vela que ela poderá soprar mais muitas vezes durante a vida.” Mas, ao contrário de hoje, lembro tão bem como, quando criança, cada aniversário meu era desejado e esperado com toda força, como se fosse um dia que o mundo parasse, como se todos estivessem pensando em mim o tempo todo.

E na hora lembrei-me do texto da Eliane Brum. Posso até ter entendido o texto errado, não ter captado a essência do que ela disse, mas relacionei uma coisa à outra assim que assisti ao vídeo do parabéns pela primeira vez. E lembrei-me de um trecho bem específico: “Lembro-me de que, naquele momento, as lágrimas pingaram dos meus olhos, como de uma torneira mal fechada. Eu soube ali que jamais poderia tapar aquele buraco, que teria de testemunhar para sempre aquela luta íntima na qual cada um de nós está só. Sempre só. Eu assistia a ela desde já, tão pequena, tão frágil, tão confiante no meu poder ilusório, debatendo-se com a vida. E para sempre diante dela eu pingaria como uma torneira mal fechada. (...) a certeza de que proteger minha filha era uma missão desde sempre fracassada”.

O momento ao qual Eliane se refere no texto foi quando sua filha, na época com três ou quatro, estava no chão tentando brincar. Ela via seu esforço, e seu fracasso. Eliane, que na época tinha aproximadamente 18 anos, teve uma atitude em relação à filha que eu, com 28, não teria tido se estivesse na escola da Luna no dia de sua festa:“Eu sabia que tudo o que eu podia fazer era me manter em silêncio. Que ser mãe, naquele momento, era ser capaz de vê-la debater-se com o vazio, testemunhar o início de seu longo embate vida adentro. E acho que ali, como deve acontecer com os pais e mães que percebem esse momento exato, uma fissura nova se abriu em mim. Esta que para sempre me faria pingar como uma torneira mal fechada”. E fiquei pensando que, se eu estivesse na escola naquele dia, eu teria ido pelo caminho contrário, teria sucumbido ao impulso de justamente ir até Luna, abraçá-la e dizer o que quer que fosse para acalmá-la. E só ao pensar no texto eu percebi que estaria privando Luna da sua própria construção de sentidos. Eliane me presenteia de novo: “É o que fazemos como pais neste momento em que um filho descobre o vazio, um momento mais importante do que a primeira palavra ou o primeiro passo ou o primeiro dente, que também nos torna pais. É preciso aguentar. Saber aguentar e escutar a dor de um filho, sem tentar calar com coisas o que não pode ser calado com coisa alguma, é um ato profundo de amor. Um momento sem palavras em que nosso silêncio diz apenas que a tarefa de criar uma vida que faça sentido é dele, pessoal e intransferível. E tudo o que poderemos fazer é estar mais ou menos por perto, ainda que nada possamos fazer”.

Pelas fotos tiradas momentos depois, era nítido o quanto o ocorrido tinha ficado pra trás, pois ela estava radiante comendo seu bolo, sentada à mesa com seus amigos. E isso só comprova que, para o bem dela, terei que deixá-la ter seus momentos de vazio; terei que fazer esse exercício diariamente, mesmo sendo muito, muito difícil. Acho que vou errar muito, pois a dor de vê-la sofrer, por mais passageira que seja, por mais que não fique, pelo menos por enquanto, registrada em suas lembranças emocionais, não me deixa ficar com os pés fixos no chão, com os braços grudados ao lado do corpo e com os lábios colados.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

13.01.2013 - Luna - 2 anos



Já vivi muita coisa bacana na vida. Já viajei pra lugares lindos, para os quais nem imaginava ir; conheci pessoas incríveis, que me fizeram chorar de alegria e gargalhar de tristeza; ouvi músicas que me faziam dançar mais do que meu corpo aguentava e relaxar deitada num sofá num domingo à tarde; já provei comidas de todos (ou quase todos) os sabores e experimentei sentimentos que eu nem sabia que poderiam existir. Não quero renegar nenhum momento da minha vida, pois todos me fizeram ser o que sou hoje.
Mas há dois anos, a cada dia que acordo, tenho a sensação mais plena do mundo, única e inexplicável. Acordo e no momento seguinte meus pensamento voam da minha cama até o quarto ao lado - quando não é a "cama" do quarto ao lado que vem até mim antes dos meus olhos se abrirem. E sou feliz demais por isso a cada minuto que passa.
Acho que declarações de amor a gente faz pro marido, pro namorado, pros pais, pros amigos. Mas para os filhos eu não daria esse nome, aliás, eu não sei como descrever o que eu sinto pela minha filha e como colocar isso em palavras.
Todos os dias eu deito a cabeça no travesseiro na hora de dormir e, antes que o sono me domine, tenho tempo para agradecer pelo menos por uma coisa: por ser mãe da Luna e amá-la tanto do jeito que amo.
Feliz aniversário, meu amor!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

‎1 ano de Luna.


Falar sobre amor, falar sobre medos? É tudo "tão" que parece não caber aqui.

Só sei que há um ano dois corações batem no meu peito e desde então são os dois batendo juntos que me mantém viva.

Luna não é um pedaço de mim, sou eu inteira ali; do melhor jeito que posso, na medida errada mesmo, porque mãe exagera e não tem limite.

O ano mais incrível da minha vida.