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quinta-feira, 7 de março de 2013

Tal filha, tal mãe


No filme ‘Awake – A vida por um fio’, a mãe do protagonista abre mão da própria vida para doar o coração para o filho que está morrendo em uma sala de cirurgia.  E fiquei pensando que, se nós estivéssemos vivendo aquilo, eu não pensaria duas vezes antes de tomar a mesma decisão da personagem de Lena Olin, porque não faria o menor sentido continuar vivendo sem minha filha.

O assunto aqui é sobre doação, porém, mais leve do que o do filme acima. A minha doação é diária e começou desde o momento que descobri a gravidez: mudei a alimentação, a rotina, a relação com o corpo, com a saúde, com o trabalho; a casa nova foi planejada já sabendo que, muito em breve, teria a presença diária de um bebê ali. Desde que nasceu, muitas das escolhas foram feitas pensando exclusivamente nela; algumas mais fáceis, outras nem tanto.

Vamos falar sobre os cabelos...

Luna tem um corte de cabelo que é um charme, e vive recebendo elogios: um channel bem curtinho e repicado; e a ideia é manter mais ou menos este corte por um bom tempo. Luna transpira muito no calor e se tivesse um cabelo mais longo, eu teria que deixá-lo sempre preso. Liberdade já! Até porque, ela só tem dois anos e meio e, em minha opinião, um serzinho de aproximadamente 90 centímetros não combina com madeixas longas.

Ontem de manhã Luna pegou um elástico de cabelo e pediu que eu prendesse ‘igual ao da Larissa’. Como de costume, fiz um penteado “chafariz de baleia” – nome criado por nossa vizinha de quatro anos – no alto da cabeça. Luna tirou o elástico dizendo “Assim não, mamãe, aqui atrás”. Ui! Ouvi o barulho dos pedaços do meu coração caindo no chão de madeira do quarto. Depois de recolhê-los mentalmente, perguntei se a Larissa era alguma amiga da escola, já imaginando que ela teria cabelos compridos. Luna respondeu que sim.  Tentei fazer um rabicó, mas ao colocar a mão e perceber a escassez de cabelo que estava preso, Luna não ficou satisfeita e desmanchou o rabo de cavalo coelho, repetindo o mantra “Assim não, mamãe. Assim não”. Como eu sabia que não conseguiria atender suas vontades, sugeri que ela segurasse o elástico até a escola e lá pedisse que a auxiliar cabeleireira das meninas prendesse seu cabelo. E assim foi.

Mas no caminho para o trabalho fiquei pensando sobre o assunto. Todas as pessoas próximas à Luna (tirando as avós) tinham cabelo comprido: eu, a madrinha, a prima, a mãe da prima, a namorada do padrinho, as amigas da escola, a professora, as auxiliares. Uns maiores do que outros, mas todos possíveis de serem presos num rabo de cavalo. E achei “injusto” com ela. Bem, seu cabelo ficaria curto de qualquer jeito e eu não tinha como opinar no cabelo alheio; mas poderia fazer algo com o meu.

E fiz. Cheguei ao trabalho e pedi sugestões de lugares pra cortar. Minha chefe corta com um cara que fica na rua ao lado do trabalho. Liguei e marquei horário para o final do expediente. Eu estava muito feliz por radicalizar pelos motivos em si, mas tamanha mudança em algo fundamental para uma mulher, literalmente de uma hora pra outra, não estava sendo fácil. Passei a tarde em um misto de ansiedade e animação.

Mas pensava sempre na Luna, pois, mesmo que ela não entendesse claramente o motivo da mudança, EU sabia que poderia ser o exemplo caso ela se/me questionasse a respeito do seu visual. Então acabei chegando ao salão tão decidida do que queria, que passei quase uma hora praticamente implorando pro cabeleireiro pesar a mão.

E o resultado foi esse:

Créditos: Diego Cortes (padrinho da Luna)
Quando me viu, Luna fez uma carinha de ‘tem alguma coisa diferente’, mas como eu estava super empolgada, acabei não dando muito tempo pra ela avaliar a figura que adentrava pela porta e já fui chacoalhando a cabeça dizendo igual uma doida escandalosa: “Filhaaaaaaa, mamãe cortou o cabelo pra ficar igual ao seu!!! Agora nós duas temos o cabelo curtinho!!!”. Não sei se a empolgação era de saudade por me ver depois de um dia inteiro longe ou se ela achou o visual um a-ha-so! Mas Luna pulou no meu colo, me abraçou forte e me deu aquele beijo molhado-animado.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Too much moderninha

O primeiro registro que tenho na memória de uma peculiar situação que aconteceu na família é: Silvio mexendo no cabelo da nossa cria, ambos sentados no sofá da sala, enquanto eu lavava a louça do jantar. De repente ouço a seguinte frase: “Li, acho que eu vou cortar o cabelo da Luna”.
Pára tudo!!! Vamos voltar só um pouquinho: Luna já nasceu cabeluda. Era tanto cabelo que, se fosse verdade a tal lenda urbana que diz que é proporcional a sensação de azia que a progenitora sente dependendo da quantidade de cabelos de seu feto, eu teria montado uma mini-casa no banheiro pra poder ficar vomitando com a cara enfiada na privada durante os últimos meses de gestação. O que não aconteceu.
O primeiro corte de cabelo da pequena foi aos quatro meses – Luna já era linda, mas os cabelos... – e assim a tesoura veio visitá-la a cada três meses desde então. No dia D do primeiro parágrafo deste texto, Luna estava com uma vasta (vasta!) cabeleira, quase um capacete. Mas uma criança do tamanho dela com cabelo comprido é desproporcional; por isso estávamos deixando as madeixas crescerem até o ponto certo pra fazer um corte moderninho: apenas dar uma repicada na frente, deixar com movimento e tirar um pouquinho de volume. Eu ainda iria pesquisar uns modelos de cortes e tal, sem pressa.
Quando Silvio fez a proposta indecente (isso sim é uma proposta indecente para uma mãe de menina!) aquele dia, eu quase caí pra trás. No começo achei que ele estava brincando e que eu iria fazê-lo mudar de ideia num piscar de olhos, porque minha primeira reação foi: “Não ouse encostar no cabelo dela”. Aí, como bom publicitário, ele foi desenvolvendo aquele discurso de que ele sabe o que faz, que eu precisava confiar mais nele, que seria simples, coisa e tal. Resolvi encerrar a conversa ali mesmo, confiando que aquela maluquice não iria adiante.
Minutos depois ele sai de casa dizendo que iria conversar com o vizinho; isso é comum, já que ambos estão no conselho administrativo do condomínio e o que não falta é pepino pra ser resolvido. Silvio volta de lá dizendo: Já sei como cortar o cabelo dela.
Abre parênteses
A mãe da nossa vizinha é cabeleireira, foi ela quem cortou o cabelo da Luna a maioria das vezes e ela estava na casa ao lado na noite em questão. Portanto, uma ova que ele foi bater na porta ao lado pra falar com o vizinho.
Fecha parênteses
Jura mesmo que ele não tinha desistido da ideia?! Tentei conversar novamente, dizendo que não era do jeito que ele imaginava, que pessoas estudavam para aprender as técnicas certas, que Luna iria se mexer muito e isso faria com que o ato de cortar se tornasse muito mais difícil. Quando percebi que a batalha estava vencida, decidi me conformar e rezar: Silvio faz tudo muito bem feito, ele é metódico e detalhista, não vai fazer cagada no cabelo da minha filha; em último caso, cabelo cresce. Amém!
Silvio arrastou o móvel da lavanderia pra ganhar espaço e levou a banqueta da cozinha pra lá. A capa que colocamos na Luna para que ela não se sujasse de cabelo foi o roupão que Silvio ganhou quando comprou o box com os cinco filmes da sequencia de Rocky Balboa. Silvio ficaria com a função de cortar o cabelo (AI MEU DEUS!!!) e eu com a de distrair a pequena... Vítima. Não foi fácil, momentos de risada, de choro irritado e de silêncio por parte dela; e agonia pura dentro de mim. Mas preferi entoar internamente o mantra ‘Silvio sabe o que está fazendo, Silvio sabe o que está fazendo’. Preferi focar na pequena e nem olhar os cabelos que caíam no chão. Os minutos finais foram terríveis, Luna queria sair dali de qualquer jeito, mas já que havíamos começado o processo, precisaríamos terminá-lo. Quando Silvio considerou que havia finalizado o trabalho, peguei minha filha e a levei direto pro banho; ela estava parecendo um Ewok (mais bonitinho, claro!) e a ideia era tentar desgrudar o quanto antes aquele monte de cabelos de seu pescoço, testa, bochechas e qualquer parte do corpo que estivesse ficado à mostra.
Banho tomado, cabelo seco. Parei pra olhar o resultado e uma tristeza envolveu meu coração. Luna continuava uma graça, mas seus cabelos... Algumas das longas e lisas madeixas, que antes chegavam até seu pescoço, estavam agora curtinhas, BEM curtinhas. Não gostei e fiquei bem puta com Silvio por ter insistido tanto na ideia; mas fiquei mais puta da vida comigo mesma, por ter concordado em levar a tal da ideia adiante. Deixei bem claro que esta tinha sido a primeira e única vez e depois disso não falei mais com ele o resto da noite, ainda inconformada. Eu só pensava em arranjar uma cabeleireira de verdade pra arruma o estrago, no matter what.
No dia seguinte, a caminho da escola, passamos num salão perto de casa que estava ainda abrindo as portas. Começamos uma conversa com a funcionária sem mesmo sair do carro e assim que ela informou que tinha experiência em cortar cabelo de crianças pequenas, não tivemos dúvida: “Moça, coloque esta tesoura pra trabalhar já!... Por favor!” Como tudo ainda estava muito recente, fui tratando de compartilhar a insatisfação da Luna minha insatisfação com a tal cabeleireira; e o que eu ouço em troca? “Não ficou ruim, não. Ficou bom, só precisa de uns ajustes”. Era o tal do inferno astral, só podia ser. Foi o ponto inicial pra eu passar dias ouvindo que só porque EU não havia gostado não é que tinha ficado ruim; mas Silvio também concordou em nunca mais repetir a dose.
(Mais) alguns fios de cabelo a menos e duas presilhinhas de lado, deixamos Luna na escola. Ao buscar minha pequena Joana no final da tarde, leio assim na agenda: “Nossa pequena ficou linda com esse cabelo.” Hunf! Foi combinado! Só pode ter sido combinado! Mas também teve gente que disse que preferia Luninha com sua vasta cabeleira. Ponto pra mim!
Três dias depois fiz um almoço pra comemorar minhas 28 primaveras. Foram basicamente os mais chegados da família e amigos de longa data. Todos que elogiavam o novo penteado da filha da aniversariante eu discretamente fazia o sinal de silêncio e torcia pra que Silvio não estivesse por perto.
 
Passado um mês desde o dia que Sansão perdeu a força – ou não, Luna continua carregando coisas pela casa toda – o corte já melhorou bem; aliás, está quase na hora de tirar a franja dos olhos. O corte está bem moderninho e prático, pra lavar e pra secar quando precisa. Praticamente esqueci como era o cabelo da Rapunzel; tudo que tenho que fazer é esperar o cabelo crescer e, enquanto isso, não olhar as fotos de um mês atrás.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Mudanças em movimento

Não é a primeira vez que o acessório carro foi motivo de reflexões no blog. Mas desta vez uma simples decisão mudou a dinâmica da família e minha “relação” com a Luna, me fazendo, mais uma vez, enfrentar o monstrinho do desapego.



Dirijo desde os 20 anos e sempre gostei de estar ao volante; tá, nem sempre, já que o trânsito de São Paulo entristece qualquer um, ontem, hoje e sempre. Mas desde que minha barriga começou a crescer do meio pro final da gravidez eu passei a evitar o risco desnecessário de ter Luna colada ao volante e, sempre que eu e Silvio saíamos, era ele quem dirigia. Pulo um – do banco do motorista para o banco de passageiro.


E a pequena Branca de Neve nasceu, toda linda e indefesa. E daí que lugar de mãe de recém-nascido é no banco de trás (a não ser quando o pai sinta vontade de babar na filha), ao lado da cria, zelando-a enquanto o pai, a avó ou quem quer que seja fique atento a semáforos de curta duração, motoboys apressadinhos, ônibus folgados e pedestres atravessando a rua sem prestar atenção ao sinal vermelho. Pulo dois – do banco do passageiro para o banco de trás.


E por quase um ano a vida foi essa, a parte da frente do carro era composta por Silvio dirigindo e a bolsa da Luna ao seu lado e a na parte de trás ficava a fofa no bebê conforto - e depois na cadeirinha - e eu, fazendo carinho, cantando, brincando com chocalhos e bonecos, dando mamadeira, ajeitando a cabeça quando ela dormia. Silvio – neste caso representado por um braço, uma mão e uma cabeça virada pra trás - também sempre participou dos momentos de interação familiar dentro do carro e nunca me cobrou de ir pra frente.



Mas até quando manter o desenho do carro daquela maneira? Até quando Luna precisaria realmente estar acompanhada no banco de trás? E se eu fosse pro banco da frente e morresse de saudades alguma coisa acontecesse?


E minha memória me trouxe imagens do meu afilhado indo sozinho no banco de trás ainda pequeninho – hoje ele é um moço de três anos e meio! - e acho que sempre foi tudo bem.


Então, na véspera de natal, decidimos que o terceiro pulo seria dado naquele dia: mamãe agora iria ao lado do papai e Luna iria atrás feito mocinha. Isso...


Isso? Acho que eu estou – sim, é um processo longo este de cortar o cordão umbilical que me liga á ela dentro do carro – indo bem na minha adaptação. Ela fica ali, mais quietinha, sem a mãe pra beijá-la e mexer nela brincar com ela durante as idas até a casa dos avôs no Tatuapé, dos avôs em Perus, na estrada, na ida para a escola. Mas eu viro pra trás de cinco em cinco minutos, nem que seja pra dar uma espiadinha pelo vão do banco da frente, sabe? E de cinco em cinco (também!), quando ela está acordada, continuamos todos cantando, imitando o tigre, a vaquinha e o auau; continuamos fazendo coceguinhas, pedindo pra ela mandar beijo e abraçar forte a boneca. Quando ela dorme, faço contorcionismo pra ajeitá-la e permitir que o soninho do carro continue gostoso e confortável. Pensando bem, no final quase nada mudou, o clima do carro é o mesmo, apenas com um desenho diferente.